Carlos Brando

Nome do Jogo

A origem do dia da mulher

O dia 8 de Março é, desde 1975, comemorado pelas Nações Unidas como Dia Internacional da Mulher Neste dia, do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias, que recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, se diz que os donos e os policiais as assassinaram, queimando a fabrica, e se declara que cerca de 130 mulheres morreram queimadas.

Em 1903, profissionais liberais norte-americanas criaram a Women’s Trade Union League. Esta associação tinha como principal objetivo ajudar todas as trabalhadoras a exigirem melhores condições de trabalho. Em 1908, mais de 14 mil mulheres marcharam nas ruas de Nova Iorque: reivindicaram o mesmo que as operárias no ano de 1857, bem como o direito de voto. Caminhavam com o slogan “Pão e Rosas”, em que o pão simbolizava a estabilidade econômica e as rosas uma melhor qualidade de vida. Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como “Dia Internacional da Mulher”.

Porém a falta de registros sobre a suposta tragédia levou, mais recentemente, à sua reformulação. Segundo a nova versão, o incêndio teria ocorrido em março de 1911 em um prédio de 10 andares, hoje ocupado pela Universidade de Nova York, cujos três últimos pavimentos seriam ocupados por uma indústria de confecções, a Triangle Schirwaist Company. Para impedir que os operários deixassem o trabalho, os empresários mantinham as portas trancadas e quando os bombeiros conseguiram arrombá-las, 146 pessoas - 125 mulheres e 21 homens - já estavam mortos. Mas a pesquisadora canadense Renée Coté, autora da principal obra de referência sobre a origem das comemorações do oito de março (La Journée internationale dês femmes ou les vrais dates des mystérieuses origines du 8 de mars jusqu’ici embrouillés, truquées, oubliées : la clef dês énigmes. La vérité historique - Renée Coté, Montreal - 1984), não encontrou na imprensa operária norte-americana da segunda metade do século 19 às primeiras décadas do século 20 nenhum registro de uma greve ou um incêndio com um número tão expressivo de operárias mortas. Por isso, o mais provável, supõe Renée, é que o 8 de março de 1914, um domingo, tenha sido escolhido apenas por ser a data mais conveniente para uma manifestação de operárias, que, certamente, não contaria com a boa vontade dos empresários para liberá-las do trabalho .

Mas qual significado tem uma data?

Esta é apenas uma reflexão sobre um dia que pouco representa, a não ser dinheiro para lojas de flores.Em alguns países levou muitos séculos para que as mulheres conseguissem até mesmo igualdade teórica perante a lei. E onde as leis garantem essa igualdade, um amplo abismo muitas vezes separa a teoria da prática. A publicação As Mulheres do Mundo - 1970-1990, da ONU (em inglês), declara: “Muito dessa lacuna [na diretriz governamental] está embutida em leis que negam às mulheres igualdade com os homens em seus direitos de possuir terras, tomar empréstimos e assinar contratos.” Como disse certa mulher de Uganda: “Continuamos sendo cidadãos de segunda classe - não, de terceira, porque nossos filhos homens vêm antes de nós. Em alguns casos, até mesmo jumentos e tratores são mais bem tratados.”

O próprio fato de que só em 1990 o Senado dos EUA apreciou o “Estatuto da Violência Contra as Mulheres”, mostra que os legislativos dominados por homens têm sido lentos em atender às necessidades das mulheres.

Esta breve visão do tratamento dispensado às mulheres em todo o mundo nos induz às perguntas: Será que algum dia as coisas serão diferentes? O que é preciso para mudar a situação? Será que apenas escolher um dia do ano é o suficiente para resolver as questões?

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