Carlos Brando

Nome do Jogo

Cinco minutos

MelancoliaPor que tentamos achar o que dizer quando as palavras já não podem dizer nada? Ninguém sabe o porquê numa conversa de uma hora dizemos o que queríamos dizer nos últimos cinco minutos. O que cinco minutos podem contar?

A tensão que antecede o momento nos faz despreparados. Onde estava tudo que planejávamos dizer? A noite não termina. Antecipo os sinais e encaixo as palavras e tudo parece tão fácil, as frases todas elaboradas.

Não importa se sou fluente ou desarticulado. Nada me preparou para esta hora. E lá estamos…

Eu digo algo engraçado, ela retribui com pequenas palavras. Tento evitar seus olhos, ou olhar sua boca mas me parece inevitável quando ela sorri. Conversamos sobre o filme que faltou assistir e sobre a música nova que tocou no rádio. A conversa flui e estamos os dois a se divertir, mas não era isso o que eu queria dizer. Talvez se ela tocasse no assunto… Uma hora a conversa vai acabar… e ai alguém vai dizer: “então”…

Depois de algumas risadas ela esbarra em meu braço. O toque parece inconsciente mas é sempre intencional. O silencio então chega… Não, não era para ser assim… não foi o que eu planejei…

Ficou tarde eu preciso ir e só me restam cinco minutos… Eu não disse nada do que queria dizer… Ela abaixa a cabeça e balança o pé esperando o que ela sabe que eu tenho que dizer. Porque elas parecem preparadas para isso enquanto nós sempre parecemos uns idiotas? O cala-frio sobe imediatamente e sinto minha testa suar…

Meu coração dispara e uma multidão de palavras surge infinitamente na minha cabeça. Eu preciso falar… eu não posso falar… já é tarde, ela diz: “então, né…” Eu respondo: “pois é… então…”

Cinco minutos. O final todo mundo sabe…

Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro -
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.

Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida…
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível para mim.”

Quem já não teve esses longos cinco minutos…

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